sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Castelo de Cartas



De peça em peça construí meu castelo de areia. De movimento em movimento construí minha jogada e dei meu xeque-mate.
Agora, como por uma força dos deuses nórdicos, fui empurrado ladeira abaixo, para o patamar mais obscuro em que já tentei enxergar algo.
Sozinho, naquele buraco escuro. A luz, que vinha da brecha lá no alto, parecia que vinha de dentro.
Peguei todas as cartas da mesa, mais as que eu guardava na manga, e comecei a fazer meu castelo de cartas, com uma longa escadaria rumo ao topo: eu precisava voltar. Mas a escada era tão fina, tão frágil... Não poderia subir sem deixar coisas para trás.
Depois de tirar a camisa e os sapatos, vi que não era o peso físico que importava. As coisas pesavam no seu valor. Por um instante deixei minha sapiência para trás (isso pesava muito), mas voltei atrás e a peguei de volta. Não conseguiria viver sem ela.
Pensei mais um pouco. Eu poderia subir essa escada facilmente, mas não vale a pena. Outras coisas devem poder balancear esse peso.
Meus méritos. São poucos, mas valem muito para mim. Tirei todos os que eu tinha e vi que a escada ainda não suportava... Precisava tirar mais um pouco. Vi então, num canto, uma balança vermelha que marcava quanto eu precisaria perder, e coloquei os méritos lá. Ainda faltava colocar mais.
“Quanto sangue você daria para continuar vivo?” - adoro essa frase.
Logo vi que poderia deixar coisas até mesmo absurdas - "Mais absurdo que deixar coisas abstratas?". Poderia deixar minhas mãos, minha visão.
As pessoas também podiam ser deixadas para trás. Deixar de ver alguém para sempre e, ao mesmo tempo, nunca mais poder se lembrar dele. Não é tão ruim, se pensar que, depois de esquecê-las, não terei saudades. Mas... São tão importantes.
Isso é muito difícil. Quanto mais importante, mais pesado. Não adianta deixar para trás as coisas que eu não gosto: livrar-me de males aumenta meu peso...
Vi-me afundando ainda mais naquelas trevas. Não tinha muito tempo.
Peguei meus méritos, meu nome, meus livros e empilhei tudo junto com a minha infância e minha visão - "Não, não a visão. Preciso ver, preciso ouvir...”. Faltava algo. Ainda faltava algo. Decidi deixar meus desejos de lado - tantos já os fizeram - e coloquei na balança também - "O que será da minha vida sem desejos? Por qual motivo viverei?". Guardei comigo só o desejo de mudar o mundo – “É o único que me importa...”. Antes de correr para subir, um último olhar perdido para o que deixei.
Com o frio na barriga habitual que tinha ao tomar uma decisão importante - "Ah, queria tanto deixar isso..." -, subi a escada, que ia se partido a cada passo, sem volta.

Texto de 2005

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