sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Documentos em Branco



Foi quando, revendo documentos em branco, percebi que, dentro dos meus pesadelos, havia deixado algo para depois. Num canto, escondido, um recado para mim mesmo: “Que droga esta vida. Estou condenado a descansar em paz? Não terei visitas importunando meu túmulo?”.
Não me lembro exatamente o que me fez escrever o recado, mas ele ainda está de pé. Afinal, ainda não concluí nada de importante nesta vida. Nem quando tinha quase 17 anos, nem no mês em que faria 19. E muito menos agora, quase aos 21.
Já superei metade de uma faculdade. Já acabei um namoro de ¼ de década. Basicamente: estou terminando muita coisa, mas não concluindo nada neste período.
E, voltando a esse pesadelo, agora estou com menos peso na cosciência: seria uma vantagem se eu tivesse que enfrentar aquela balança de novo, mas não irei tão cedo. Afinal, sou um humano muitíssimo diferente do que era anos atrás. Agora eu pouco reclamo – se comparado a antes. Agora, em silêncio, eu viro as costas para os problemas. É, de fato isto é ruim, mas também mostra que estou mais maduro: não perco meu tempo com inutilidades.
Por outro lado, tenho mais tempo que antes, mas não o consumo adequadamente. Este é, de fato, o problema, a qual tenho virado as costas constantemente.
Será que estou certo ao afirmar que a vida deve ser vivida em prazeres, e que a glória e o mérito não devem ser objetivados e coletados, mas que surgirão sozinhos, conforme se pratica uma vida impetuosa?
Já tenho as respostas para as perguntas, resolvi as equações que não sabia. Agora, não tenho mais nada o que dizer, a não ser verdades. Hora de começar a questioná-las!
Estou acordado, mas fingirei que é um sonho: estou de frente para uma tela em branco, com uma faca nas mãos. Aquela velha tolice da auto-mutilação para libertação espiritual. Mutilar por dentro, não por fora.
"Você tem sido uma formiga, atuando em trabalhos que qualquer um faz. Não se mostra capaz de produzir nada de excepcional, embora se sinta forte o bastante para responder qualquer pergunta que lhe lançarem. Você tem apenas vivido a vida, e ainda sente que não a aproveita o bastante – e, preste atenção, suas reclamações não são exatamente por não ter realizado algum feito brilhante, mas por não ter gozado de prazeres e felicidades o suficiente. Você sabe que não é capaz de ter tantos prazeres, que não tem a lábia ou o ímpeto para isso. Você sabe, porém, que é capaz de realizar qualquer tarefa, desde que lhe sejam dadas as instruções corretas. Porém, também sabe que as tarefas realmente importantes não possuem instruções. E que, sem instruções, parece não ser capaz de absolutamente nada. Então, quando você irá se destacar em alguma coisa? Quando você começará a fazer sua vida valer a pena, fazer ela se tornar exatamente o que você deseja? Pois, mesmo sendo apenas um desejo, você sabe que a realização da felicidade superior é a transformação do desejo em querer, a busca e a execução."
Até agora, nada de novo. “Me falta inspiração para conseguir dizer a mim mesmo o que realmente importa. Me mostro incapaz até nisso”.
“A tela é extensa demais, com espaços demais. Não sou capaz de tirar tanto sangue de mim para escrever nela toda”.
Sou fraco.

Escrito em 07/10/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários são livres. Sua opinião será levada em consideração para as próximas postagens.