sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tela de Sangue




Faz dois anos que eu não piso aqui. Há pouco tempo, tive momentos de nostalgia – desde aquele dia eu não os tinha. Há pouco tempo, dividi com amigos pacientes meus méritos.
Coisas que deixei de lado e que, de alguma forma, voltaram. Percebo hoje que minha vida estava bem melhor sem elas. A infância foi uma droga, e ninguém quer ouvir um chato de vangloriar. Busquei livros novos, e a vida, com apenas um desejo, se tornou bem mais objetiva.
Hoje estou de novo neste buraco. Hora de realizar o procedimento padrão e sair – já havia começado a pensar em quê deixar para trás. Porém, uma surpresa – “Onde estão as cartas? Como farei a escada?”.
Olhei ao redor em busca de algum objeto familiar – “Onde está a balança, afinal?”. Não era o mesmo mundo de antes...
Encontro então, ao canto, uma tela em branco e uma faca. “O que fazer com isso?”, perguntei para mim mesmo, mas eu já sabia a resposta. Era claro que sabia: aquele mundo estava dentro de mim!
Devo escrever com sangue.
Mas o que escrever? Para quem escrever? – “Um recado. Um recado para o mundo”. E nenhum recado curto ou inútil – a tela não se satisfaria assim. Devia ser algo que usasse até a última gota – que necessitasse diluir sangue em suor para poder escrever tudo.
Percebi que, caso conseguisse escrever, entraria em contradição com este mundo: estou num pesadelo, não num sonho. Senti que ia morrer de fome, ou acordar às sete da manhã, com um despertador chato, rumo à rotina de um ser que vive sem nada fazer.
“Que droga esta vida. Estou condenado a descansar em paz? Não terei visitas importunando meu túmulo?”.
O tempo estava acabando. “Amanhã passarei por aqui e escreverei...” - por quanto tempo vou mentir para mim mesmo?

Texto de 05/12/2007

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