quinta-feira, 19 de julho de 2012

O dilema do prisioneiro e o caos do transporte urbano


O dilema do prisioneiro e o caos do transporte urbano

Para se entender o que vou dizer, é interessante estar familiarizado com um pouco de Teoria dos Jogos, no básico do Dilema do Prisioneiro:


Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, e, portanto, só pode mantê-los presos por 1 ano em prisão preventiva. Porém, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros testemunhar contra o outro, sua pena é reduzida em 1 ano e a pena do outro, agora com o testemunho, vai para 3 anos. Portanto, se um testemunhar e o outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 4 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 1 ano de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 3 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?


A questão é simples: a situação é "boa" quando os dois cooperarem (1 ano de cadeia é pouco comparado a 4 anos). É "ótima", porém, para quem não coopera quando o outro coopera. Por outro lado, é "ruim" quando nenhum coopera e "péssima" para quem coopera e é traído.

A análise é simples por termos apenas dois indivíduos. Existem apenas 4 situações. Ao inserirmos mais pessoas, vão sendo criadas gradações. Quem leu "O Gene Egoísta", do Richard Dawkins, um livro de biologia que aparentemente não tem nada a ver com o assunto aqui, vai se espantar com as semelhanças a seguir:

Suponhamos, agora, numa situação ideal, que todos em Fortaleza, apesar de terem seus carros individuais, aderissem a um sistema de caronas ou rodízios: ao ir para o trabalho/universidade/seja lá, uma pessoa passa na casa de dois, três ou quatro pessoas e vão todos juntos. Nas semanas seguintes, o "motorista da rodada" passa a ser outro, e assim vai. Além da economia óbvia em gastos com manutenção de veículo e combustível, ao trocar carros individuais por carros com três a cinco pessoas, o número de veículos seria reduzido, hipoteticamente, para algo entre 20% e 33% da frota de veículos nas ruas.
Esta é uma situação "boa", e não "ótima", tendo em vista que ainda há o trabalho de desviar o percurso direto para o trabalho.
Mas para um indivíduo, que chamarei de "Elite", a economia em combustível pelos dias em que receberia carona não compensa o conforto de ir direto ao trabalho, sem dar carona ou depender de carona, na hora que quiser. E realmente não compensa. Então ele decide abandonar o sistema de rodízio. Ele encontra-se agora na situação "ótima", pois as ruas possuem poucos carros, o deslocamento é rápido e o gasto em combustível é mínimo em comparação com o conforto do veículo particular pleno. Este indivíduo, sozinho, não chega a alterar o status "boa" da situação dos que praticam o rodízio.
Um a um, porém, os indivíduos vão abandonando os sistemas de rodízio e migrando para o veículo particular pleno, o carro com apenas um passageiro. Vão migrando para um estágio em que, individualmente, passam do "bom" para o "ótimo". Numa proporção de 50/50, com metade cooperando e metade traindo, chegamos a um dos pontos do dilema do prisioneiro: os 50% que "traem", a "Elite", ficam numa situação considerada "boa", o veículo particular pleno, com entre 60% e 67% da frota de veículos nas ruas; os 50% que "cooperam", que praticam o rodízio, ficam numa situação "ruim", pois, além do trabalho resultante do rodízio, agora têm de lidar com algo entre duas e três vezes o número de veículos antes do processo de elitização do transporte.
Ao se aproximar do outro extremo, com mais e mais pessoas se tornando parte da Elite, com a frota total nas ruas se aproximando de 100%, já não é "bom" para ninguém: o trânsito é um ônus pesado para todos (muito maior que o de fornecer carona), e, se a situação é "ruim" para quem é da Elite, é "péssima" para quem ainda coopera com o rodízio. Por isto mesmo, é impossível a curva se inverter: mesmo o estado geral de rodízio (carona) sendo melhor que o estado geral de elite, para cada veículo individual é melhor permanecer como elite.

Se criássemos um modelo matemático para isto (o que não é difícil, mas não sei fazer, e nem vou, pois Dawkins criou diversos modelos aplicados à seleção natural e os resultados seriam os mesmos aqui), em que atribuíssemos pontuações positivas para os ganhos (autonomia sobre o veículo, trânsito livre, economia de combustível) e pontuações negativas para as perdas (dar carona, pegar trânsito, maior gasto em combustível), e cada indivíduo fazendo uma escolha e ganhando/perdendo pontos por ela, numa escala temporal, até atingir um equilíbrio, chegaríamos nestas conclusões:
O Equilíbrio seria atingido quando todos passassem a utilizar o veículo individual.
Porém, o equilíbrio não é a melhor opção. Se considerássemos a melhor opção sendo a situação em que somamos a pontuação de cada indivíduo de acordo com sua atitude e atingimos a maior pontuação possível, encontraríamos um ponto onde há uma parcela (menor) de "Elite" (palavra usada na concepção da nossa hipótese) e uma parcela (maior) de Cooperadores. Isto é o que a elite (palavra usada agora para nossa realidade) quer: só alguns poderem ter carro.
Ainda assim, não é a melhor opção para o total, pois temos aqui um desbalanço entre as duas "classes". E, também, não é uma situação estável, pois os indivíduos que atuam de uma forma podem passar a atuar de outra, e praticamente sempre será de indivíduos "cooperadores" migrando para a "elite".

A verdade é que, neste modelo, o descompasso entre os ganhos do sistema de rodízios e caronas é tão grande em relação ao veículo particular pleno, que, antes do surgimento do fator "trânsito", não havia motivos para o sistema de caronas. O crescimento econômico e a redução da desigualdade social realmente facilitaram o acesso a veículos e a gasolina, tida como cara, na verdade não é cara (se fosse cara, todos estariam realizando rodízios). Mas o problema não é o crescimento econômico e muito menos a desigualdade social (até por que, o número de carros crescendo na rua não é por conta de "gente pobre" comprando carro, mas de "gente rica" comprando carro pros seus filhinhos mimados). O problema, na verdade, é o descompasso: andar num veículo individual é melhor que andar em transporte público ou entrar num sistema de caronas.

A conclusão é óbvia e não necessitava de tanto texto, mas, se é para todos entenderem eu até desenho:
Se todos cooperassem, poderíamos ter uma situação benéfica para todos. Porém, alguém sempre vai se aproveitar da cooperação dos outros para obter um benefício ainda maior. Quando ninguém coopera, chega-se numa situação ruim para todos. Não existe tal coisa de "conscientizar" a população. Ninguém gosta de ser explorado: mesmo que não seja pelo benefício maior, as pessoas se cansarão e deixarão de cooperar. Deve-se, portanto, resolver este descompasso existente em qualquer dado momento (seja com todos, com alguns ou com nenhum cooperador) entre "cooperar" e "ser elite". Deve-se beneficiar amplamente quem coopera, de tal forma a "cooperar" (isto é, utilizar veículo público, entrar em sistema de carona, etc.) ser tão bom ou até melhor que fazer parte da elite.

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