terça-feira, 20 de outubro de 2015

Quantas provas são necessárias?

O texto é sobre religião. É um assunto polêmico, muitos evitam, mas acredito que a leitura vale a pena. :)

A crítica seletiva. A verdade a priori.

O debate entre religião e ciência é desonesto: os religiosos não tem chance.

Seria mais fácil para eles nunca serem questionados. Felizmente é natureza humana questionar, de forma que até crianças de quatro ou cinco anos querem saber onde está Deus. Infelizmente, a religião utiliza os piores meios para impor sua fantasia, atacando inclusive as crianças através da doutrinação infantil e do batismo. Mesmo questionadoras, as crianças são facilmente enganadas.

A verdade, a resposta, já é conhecida antes mesmo da pergunta. Antes mesmo da análise dos fatos, sabe-se que a bíblia é verdadeira. E quaisquer afirmações que venham de encontro a ela, ou que tenham como consequência lógica sua oposição, são falsas.

Os "intelectuais religiosos" buscam derrubar conceitos científicos, como se esse fosse um meio de fazer prevalecer a religião. Um erro: duas afirmações podem ser mutuamente excludentes, mas a negativa de uma não afirma a outra. O pior: não conseguem derrubar os conceitos, mas cantam vitórias como se conseguissem (a melhor representação do pombo enxadrista que conheço).

As afirmações acima possuem tantos exemplos para elas que, mesmo sem eles, um leitor sem fé nos mitos religiosos concordaria, pois eles (os exemplos) saltariam às suas mentes. Trarei duas questões: uma sustentada pelas igrejas e tida como verdadeira por muitos, pois está na bíblia; outra apoiada pela ciência, num processo de construção intelectual que levou anos e diversas pessoas envolvidas, e que, apesar de hoje incontestável, ainda recebe ataques das religiões. São elas: o êxodo e o evolucionismo.

O Êxodo

#PraCegoVer: um homem de costas abrindo as águas do mar para a passagem de milhões de pessoas. No horizonte, uma formação rochosa que deve ser o Monte Sinai bíblico.
#PraCegoVer: um homem de costas abrindo as águas do mar para a passagem de milhões de pessoas. No horizonte, uma formação rochosa que deve ser o Monte Sinai bíblico.

O Livro do Êxodo dá continuidade ao livro da Gênesis e relata como Moisés conduz os israelitas do Egito pelo deserto até o Monte Sinai Bíblico. Os filhos de Israel partiram de Ramsés em direção a Sucot, cerca de seiscentos mil homens a pé – somente homens, sem contar suas famílias (mulheres e crianças) (Êxodo 12:37).

O Livro dos Números conta como os israelitas, liderados agora por seu Deus, viajaram do Sinai até Canaã, porém quando seus espiões relataram que aquela terra era povoada por gigantes eles se recusaram a seguir adiante. Deus então os condenou a permanecer no deserto até que a geração que abandonou o Egito tivesse perecido. Depois de trinta e oito anos no oásis de Kadesh Barnea, a geração seguinte viajou até as fronteiras de Canaã. Os cerca de dois milhões que compunham a primeira geração morreram no deserto.

O Livro do Deuteronômio narra como, já diante da Terra Prometida, Moisés recordou suas viagens e lhes deu novas leis. Sua morte conclui os quarenta anos do êxodo do Egito.

De acordo com a tradição, o Êxodo e os outros quatro livros da Torá foram escritos por Moisés na segunda metade do 2º milênio a.C., isto é: três mil e quinhentos anos atrás.

Neste ponto, a pergunta: você acredita em qualquer um desses fatos? É quase uma tradição entre os religiosos ignorar os acontecimentos fantásticos da bíblia, como o gigante, mas ter os outros como verdadeiros. Como se eu pudesse acreditar na Odisseia de Homero, excluindo apenas o ciclope e outras criaturas fantásticas. Enfim, o quanto você acredita na bíblia, no antigo testamento, na história de Moisés, na fuga do Egito para a terra prometida?

#PraCegoVer: um homem minúsculo em pé sobre uma pedra conversando com um homem gigante de um só olho que está sentado. Ao lado, uma mulher loira de altura intermediária, também conversando com o gigante.
#PraCegoVer: um homem minúsculo em pé sobre uma pedra conversando com um homem gigante de um só olho que está sentado. Ao lado, uma mulher loira de altura intermediária, também conversando com o gigante. Bíblia ou Odisseia?

Mais de um século de pesquisa arqueológica não descobriu nada que pudesse comprovar os elementos narrativos do livro do Êxodo - os quatro séculos de estadia no Egito, a fuga de bem mais de um milhão de israelitas do Delta ou os três meses de jornada através do deserto até o Sinai. Segundo historiadores modernos, não há qualquer evidência arqueológica que confirme a veracidade da história narrada no Livro do Êxodo.

Isto é: dois milhões de pessoas supostamente morreram no deserto, numa faixa de terra bem delimitada, há não tanto tempo atrás (três mil e quinhentos anos não são nada comparados ao que será dito a seguir), e não há nenhuma prova. E ainda insistem em tratar como verdade, com três das maiores religiões do mundo baseadas nas consequências desses acontecimentos. Imagine quantos pesquisadores sérios, motivados pela fé, procuraram qualquer prova desse fato. Quanto dinheiro foi investido por grupos religiosos para provar que aquilo tudo era real. E nada.

O evolucionismo

#PraCegoVer: Uma pintura do rosto de Sir Charles Darwin.
#PraCegoVer: Uma pintura do rosto de Sir Charles Darwin.

Charles Darwin veio propor que todos os seres vivos no planeta, incluindo os seres humanos, descendiam de um ancestral comum. E que a origem de novas espécies se dava por um processo natural, sem a necessidade de um agente externo, que ele chamou de descendência com modificação. Posteriormente com redescoberta dos trabalhos de Gregor Mendel (ironicamente, um monge agostiniano), que haviam sido ignorados à época, e sua fusão com as ideias de Darwin, que culminou no que foi chamado de teoria sintética da evolução.

Apesar da teoria da evolução já ser bem consolidada, apoiada por uma gama de evidências e ser uma das teorias mais importantes para a ciência, existem aqueles que se dedicam a negar a sua veracidade. Essa onda de negação é enaltecida por fundamentalistas religiosos e pseudocientistas, e que de certa forma acaba por atingir o público cientificamente leigo, espalhando desinformação.

Não existem poucas provas, diretas ou indiretas, da realidade que é a Teoria da Evolução. Mas pegue um indivíduo com ceticismo seletivo (isto é, que duvida de tudo o que lhe convém duvidar) e lhe mostre coletâneas de fósseis ou mapeamentos genéticos, e ele não entenderá ou não acreditará. E se você der previsões? Como ele negará?

Edmond Halley tem um cometa em seu nome, mas não foi o primeiro a observá-lo. Reparando que as características observáveis de um cometa em 1682 eram praticamente as mesmas que as de dois cometas que tinham aparecido em 1531 (observado por Petrus Apianus) e 1607 (observado por Johannes Kepler), Halley concluiu que todos os três cometas eram na realidade o mesmo objeto que voltava de 76 em 76 anos. Que prova seria maior de que Halley estava certo que o reaparecimento do cometa? Calculou o tempo, o trajeto e previu seu reaparecimento, inclusive seu percurso no céu. Halley não sobreviveu para ver o regresso do cometa, pois faleceu no ano de 1742.

#PraCegoVer: Uma mariposa com longa tromba para alcançar o néctar de orquídeas.
#PraCegoVer: Uma mariposa com longa tromba para alcançar o néctar de orquídeas.

E na biologia? Como Darwin cultivou e estudou várias espécies de orquídeas nativas, ele percebeu que as formas intrincadas das orquídeas eram adaptações que permitiam que as flores atraíssem insetos que levariam o pólen para as flores próximas. Cada inseto estava perfeitamente modelado e designado para polinizar um único tipo de orquídea, da mesma forma que os bicos dos tentilhões de Galápagos eram modelados para preencher um nicho específico. Tome como exemplo a orquídea Estrela de Belém (Angraecum sesquipedale), que armazena néctar no fundo de um tubo de cerca de 30 cm de comprimento. Darwin viu esse desenho e previu que existia um animal compatível. De fato, em 1903, quase 150 anos depois, cientistas descobriram que a mariposa esfingídea ostentava uma longa tromba, ou nariz, unicamente apropriado para alcançar o fundo o tubo de néctar da orquídea.

"Ah, mas isso é obra de Deus, que criou tudo com perfeição". Quer mais?

As evidências fósseis mostram momentos pontuais da história da vida. O que revelam os fósseis? Henry Gee, escritor-chefe de ciência da revista Nature, é muito pessimista a respeito do assunto: “Nenhum fóssil é enterrado com o seu registro de nascimento... Os intervalos de tempo que separam os fósseis são tão imensos que nós não podemos dizer nada definitivo sobre sua possível conexão através da ancestralidade ou descendência... [cada fóssil] é um ponto isolado, com nenhuma conexão conhecida com qualquer outro fóssil dado, e tudo flutua num irresistível mar de lacunas... entre 10 e 5 milhões de anos atrás - diversos milhares de gerações de criaturas - tudo isso cabe dentro de uma pequena caixa... Pegar uma linhagem de fósseis e afirmar que eles representam uma linhagem não é uma hipótese científica que possa ser testada, mas uma afirmação que tem a mesma validade como uma estória para dormir - interessante, talvez até instrutiva, mas não é científica”.

Henry Gee, biólogo, não poderia estar mais certo e mais errado, ao mesmo tempo, nessa opinião. De fato, sabemos a data de um fóssil via radiometria, mas não pode-se afirmar com certeza quem são, se é que são, seus ascendentes e descendentes na escala evolutiva. (Gee de forma alguma é contra o evolucionismo e se opõe ao uso de registros fósseis, sendo que essa declaração pode causar confusão quando fora de contexto. Leia mais sobre isso no link original). Pode-se inferir, por meio de semelhanças e de tendências observadas em fósseis de diferentes datas. Isso é feito e aceito pela comunidade científica, mas não se engane achando que há um corporativismo que leva os cientistas a se apoiarem mesmo sem provas: a maior conquista de um biólogo evolucionista pode ser justamente trazer evidências suficientes para derrubar toda a estrutura já criada.

De qualquer forma, imagine só se, assim como Darwin previu a existência da mariposa esfingídea, pudéssemos prever a existência de um fóssil específico. Isto é: se, antes de ter o fóssil, pudéssemos dizer “ele existe, e vamos encontrá-lo”, e realmente o encontrássemos. Seria prova o suficiente?

#PraCegoVer: Fóssil do Tiktaalik roseae, exibido em museu.
#PraCegoVer: Fóssil do Tiktaalik roseae, exibido em museu.

Nos registros fósseis à época se tinha o Panderichthys, um peixe com jeito de anfíbio, e o Acanthostega, um anfíbio com jeito de peixe. Mas onde estava o "elo perdido" entre os dois? Um grupo de cientistas da Universidade da Pennsylvania, entre eles o biólogo evolutivo Neal Shubin, incumbiu-se de procurá-lo. Os cientistas deliberadamente pensaram em qual poderia ser o melhor lugar para procurar, baseados nos fósseis anteriores e nas camadas geológicas do período desejado. Pelas datas das duas espécies supracitadas, esse elo viveu há aproximadamente 375 milhões de anos. Determinou a idade exata de rochas que ele esperava render um animal de transição entre a água e a terra e, junto sua equipe, passou quatro verões no Ártico explorando rochas daquela idade para encontrar algo.

Os primeiros fósseis do Tiktaalik roseae foram encontrados em 2004 no ártico do Canadá. Esta espécie foi considerada um fóssil de transição entre o Panderichthys e o Acanthostega, que sugere a transição dos peixes da água para a terra. A sua descoberta é comparável à importância do Archaeopteryx. O fóssil encontrado possui características comuns de peixes, como escamas e barbatanas, e de criaturas terrestres, como cabeça achatada, indício de pescoço, ombros, cotovelos e pulso.

O evolucionismo é uma teoria construída no decorrer de mais de um século por diversos cientistas interessados em saber nada mais que a verdade. Ela é um fato que não está em nenhum livro sagrado. Não havia também um livro determinando quando existiu esse ancestral, nem em que local ele poderia ser encontrado. Com base em evidências, e apenas nisso, um grupo de cientistas previu que encontraria no Canadá, nas camadas do Devoniano Superior, um registro fóssil de aproximadamente 375 milhões de anos. São fósseis cem mil vezes mais antigos que os acontecimentos relatados no Êxodo. Uma busca que durou quatro anos, vinte e cinco vezes menos tempo, no mínimo, do que o que já foi gasto buscando em vão qualquer prova desse mito bíblico.

#PraCegoVer: Uma foto dentro do Museu da Criação. Em primeiro plano, uma placa em inglês indicando "Atos de Deus - Dia 6", que incluem a criação dos homens. Ao fundo, uma criança observando uma das atrações desse museu.
#PraCegoVer: Uma foto dentro do Museu da Criação. Em primeiro plano, uma placa em inglês indicando "Atos de Deus - Dia 6", que incluem a criação dos homens. Ao fundo, uma criança observando uma das atrações desse museu.

E com um investimento certamente menor que o usado para construir o Museu da Criação, uma absurda construção isenta de impostos que tem como objetivo “ensinar” que o universo foi criado em seis dias, que a Terra tem seis mil anos e que nós, humanos, vivemos juntos com os dinossauros, entre outras coisas. Pura doutrinação infantil.

Conclusão

Tenho certeza que nenhum religioso terá suas opiniões alteradas por esse texto. E talvez essa seja a maior conclusão. Não importa o quão didaticamente tentemos explicar algo a alguém que não queira saber daquilo. E, para esse alguém, não importa o quão absurdo sejam as crenças e a fé.
Debates são trocas de ideia e de conhecimento e podem ser muito produtivos. Mas, se o outro lado não está disposto a receber nada, contente-se em apenas aprender (se existir algo para aprender).

Referências

Dawkins, Richard. O Maior Espetáculo da Terra. Companhia das Letras, 2009.

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