terça-feira, 17 de novembro de 2015

Exercício de comunicação

Aprendi esse ano algo que mudou minha forma de me comunicar: saber diferenciar o que se disse do que se quis dizer. Passei minha vida toda trabalhando entender o que as pessoas dizem, e tentando dizer o que quero dizer da forma mais precisa possível. Não é difícil perceber duas conseqüências disso.

#PraCegoVer: A famosa cena do chá, primeira ilustração de Alice no País das Maravilhas, por John Tenniel.
#PraCegoVer: A famosa cena do chá, primeira ilustração de Alice no País das Maravilhas, por John Tenniel.

Primeiro, perder o ponto central, não entender o que a pessoa quis me dizer com sua mensagem. A linguagem é confusa, cheia de simbolismos, as palavras têm significados variados, o contexto e o tom de voz importam muito. Os debates se estendiam não por uma discordância de opinião, mas por uma discordância na forma como se fala a coisa. E, mesmo quando não se tratava de um debate, eu simplesmente falhava e ainda falho em entender a pessoa, em ser empático com ela.

Segundo, fui mal interpretado. Demais. Eu mesmo, de forma inconsciente, tratava de dizer algo que na leitura das palavras estava impecavelmente correto, mas que certamente falharia na interpretação de qualquer pessoa normal (um computador entenderia perfeitamente). Fui chamado de insensível, de "sem noção", de cabeça dura. A minha forma "impecável" de transmitir uma mensagem é imprestável em instruir, explicar e ensinar, em especial quando se parte de uma discordância.

O último ponto é fundamental: quando se parte de uma discordância. Quando dois interlocutores opostos trocam palavras, a comunicação sempre falhará onde puder falhar. Quando são dois interlocutores partem da concordância, eles tentarão ligar os pontos e entender.

O exercício, que proponho a mim mesmo e aqui escrevo, é o de responder a pergunta mais básica feita a qualquer ateísta por um teísta [1] (inclusive teístas agnósticos[2]):

"Mas em que você acredita, então?"

Não basta, aí, apenas responder a pergunta. Devemos entender o que foi perguntado, algo que, muitas vezes, nem o interlocutor sabe. O ateísta sabe que a pergunta não faz sentido, e talvez seja importante comunicar isso antes de dar a resposta. Talvez, a depender de com quem você fala.

O texto "Guerras religiosas são, basicamente, pessoas se matando para decidirem quem tem o melhor amigo imaginário." atribuído a Napoleão Bonaparte, a foto do líder político e militar do final da Revolução Francesa.
#PraCegoVer: O texto "Guerras religiosas são, basicamente, pessoas se matando para decidirem quem tem o melhor amigo imaginário." atribuído a Napoleão Bonaparte, a foto do líder político e militar do final da Revolução Francesa.

O impulso básico é responder que "não se trata de discutir sobre quem tem o melhor amigo imaginário", que "uma pessoa não precisa acreditar em um deus". Isso não resolve, e pode ser até ofensivo. E se o seu objetivo for realmente fazer-se entender (o que é diferente de mudar a opinião da outra pessoa) não é o melhor caminho a ser tomado. Aliás, a pergunta nem foi respondida.

Ainda mais: se você deseja mudar a opinião da outra pessoa, o melhor caminho talvez seja explicar o porquê de sua opinião, ao invés de explicar a opinião em si.

Mas também não vai ser útil responder, dizer a coisa em que você acredita. Tentar explicar a origem do universo, a inflação cósmica [3], e todas as hipóteses e teorias [4] que você conhecer pode ser divertido, mas a pergunta permanecerá. Ou melhor, vai mudar para algo mais próximo da pergunta real. O interlocutor questionará: "Mas quem criou tudo isso?".

#PraCegoVer: Uma história em quadrinhos. No primeiro quadrinho, um homem anda com vários balões com rosto ao seu redor, e o texto "Elídio era acompanhado por muitas dúvidas...". No segundo, ele grita aos balões "Chega! Irei estudar e me livrar de vocês!". No terceiro, ele está estudando. No quarto, ele caminha com mais balões ao redor que antes.
#PraCegoVer: Uma história em quadrinhos. No primeiro quadrinho, um homem anda com vários balões com rosto ao seu redor, e o texto "Elídio era acompanhado por muitas dúvidas...". No segundo, ele grita aos balões "Chega! Irei estudar e me livrar de vocês!". No terceiro, ele está estudando. No último, ele caminha com mais balões ao redor que antes. Crédito pela imagem: www.umsabadoqualquer.com.

Diversas vezes, na busca pelo conhecimento, ao encontrarmos uma resposta, nos deparamos com mais perguntas. Esse é um lado fantástico do pensamento científico, da curiosidade. Contudo, não é este o caso. Lembre-se que você está lidando com um interlocutor que discorda de você, que já possui uma opinião contrária a priori.

#PraCegoVer: Uma história em quadrinhos. No primeiro quadrinho, dois homens conversam em frente a uma pilha de bolinhas, e um afirma "A ciência resolveu muitos mistérios da humanidade neste século". No segundo, o outro homem aponta para uma bolinha fora da pilha e pergunta "E esse aqui?", e o primeiro homem responde "Esse ainda não". No último quadrinho, o segundo homem segura a bolinha e afirma "Então é porque foi Deus".
#PraCegoVer: Uma história em quadrinhos. No primeiro quadrinho, dois homens conversam em frente a uma pilha de bolinhas, e um afirma "A ciência resolveu muitos mistérios da humanidade neste século". No segundo, o outro homem aponta para uma bolinha fora da pilha e pergunta "E esse aqui?", e o primeiro homem responde "Esse ainda não". No último quadrinho, o segundo homem segura a bolinha e afirma "Então é porque foi Deus".Crédito pela imagem: www.umsabadoqualquer.com.

A pergunta "Mas quem criou tudo isso?" não se trata, na maioria das vezes, de um esforço genuíno de compreensão, mas de um desafio. A pergunta não respondida por você será respondida por ele, na forma de Deus. Além de falhar em responder a pergunta, você reforçou o pensamento teísta tradicional, como se a pergunta "Mas em que você acredita, então?" fosse uma pergunta que faz sentido. Ela não faz!

O caminho

O caminho é buscar o que realmente foi perguntado. Mas, já afirmei, talvez nem o interlocutor saiba o que ele perguntou de fato. O que se pode buscar responder é "Qual a primeira coisa que existiu?".

#PraCegoVer: Uma foto de Neil Degrasse Tyson fazendo a saudação vulcana do Spock, com o texto "A discussão central entre ateus e religiosos resume-se em: quem surgiu do nada, Deus ou o universo? Bem, o universo tá aí pra quem quiser ver. Apresentem Deus e a gente prossegue com o debate".
#PraCegoVer: Uma foto de Neil Degrasse Tyson fazendo a saudação vulcana do Spock, com o texto "A discussão central entre ateus e religiosos resume-se em: quem surgiu do nada, Deus ou o universo? Bem, o universo tá aí pra quem quiser ver. Apresentem Deus e a gente prossegue com o debate".

Apresentada da forma correta, a pergunta perde o caráter falacioso e remonta ao Argumento da Causa Primeira [5]. "Se você não acredita em nenhum deus [como causa primeira], em que você acredita [como causa primeira]?"

A ideia de que tudo tem uma causa nos leva a buscar a causa do Universo, que seria Deus. A resposta óbvia é questionar "mas quem criou Deus?". Perceba: você não respondeu a pergunta! Eu sei que já batemos nessa tecla: a pergunta que lhe foi dada não foi sincera. Mas, se sua intenção não for satisfazer o interlocutor, por que se incomodar em retrucar?

Deus é tido, pelo interlocutor, como algo incausado. Porém, se essa característica [ser incausado] pode ser conferida à criatura hipotética que é Deus, por que não pode ser conferida ao Universo? Trata-se apenas de uma questão: o que surgiu do nada, o que é incausado? [6]

Para finalizar

"Quais são as características dessa coisa? Por que não chamar ela de Deus?".

Mais importante do que o que se diz, é o que se quis dizer. A proposta do texto foi trazer ao ateísmo um pouco de comunicação eficiente e não-violenta. Portanto, não basta responder, mas dar a intenção da resposta. Por que motivo responder aquelas duas últimas perguntas?

Primeiro, porque diferenciar Deus do Universo tem conseqüências morais. A existência da maioria dos deuses propostos pelas culturas espalhadas no planeta implica em uma série de "certos" e "errados" e de tabus ultrapassados, que não se relacionam mais com a humanidade de hoje. Elas desrespeitam individualidades em nome de uma crença que não é compartilhada com todas as pessoas. Ainda mais: se as pessoas se sentem obrigadas a respeitar a crença alheia, por que não respeitar a não-crença? Você tem o direito de demandar esse respeito.

Segundo, porque não há motivos para achar que o Universo é Deus. Porém a maioria das pessoas, por acharem que "acreditar em Deus é bom" (não entrarei nos méritos dessa afirmação), tentarão te fazer afirmar que crê em algo, não importa o que seja, com o objetivo de "te melhorar". Obrigado, pessoas, eu entendo que querem me ajudar, mas seria melhor se me ouvissem com sinceridade. :)

#PraCegoVer: Imagem de satélite da Nebulosa Olho de Deus (Helix Nebula). Pelo seu formato e posicionamento, parece um olho.
#PraCegoVer: Imagem de satélite da Nebulosa Olho de Deus (Helix Nebula). Pelo seu formato e posicionamento, parece um olho.

Precisamos definir o que o Universo é, ou melhor, o que ele não é: não se trata de uma entidade consciente, pessoal, com intenção e vontade, com um plano ou objetivo final; ele não te vigia, não te julga, não te pune, sequer se importa mais com você do que com qualquer outra coisa (o universo não se importa mais com a Terra que com planetas sem formas de vida); o universo visível não é divino, nem mostra qualquer característica que poderia ser chamada de divina. E isso é o que eu acredito, baseado em minhas experiências.

Conclusão

A verdade é que eu, e tantos outros, posso estar errado: Deus pode, sim, existir. Mas não tenho motivos para crer. Perguntar em que eu acredito [no lugar de Deus] não faz sentido, e esta é a forma mais didática que encontrei para responder essa questão.

O exercício não se tratou de provar a inexistência de Deus. A busca, pessoal, foi de simular, em minha cabeça, uma situação que já me ocorreu diversas vezes, e nela encontrar a saída ótima: não exatamente aquela saída em que eu convenço a pessoa, pois esse não é meu o objetivo (e quase nunca é possível), mas aquela em que eu consigo satisfazer da melhor forma a questão.

Trabalhar pontualmente, numa conversa, de forma não-violenta. Ou trabalhar a passos pequenos, numa postagem de blog.

Referências

[1] O teísmo não é religião, pois não se trata de um sistema de costumes, rituais e não possui sacerdotes ou uma instituição. Teísmo é apenas o nome para classificar a opinião segundo a qual existe ou existem deuses. Algumas religiões ou posturas filosóficas são teístas, outras são deístas [1.1], panteístas, etc. (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teísmo)

[1.1] O deísmo é uma posição filosófica naturalista que acredita na criação do universo por uma inteligência superior (que pode ser Deus, ou não), através da razão, do livre pensamento e da experiência pessoal, em vez dos elementos comuns das religiões teístas como a revelação direta, ou tradição. (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Deísmo)

[2] Um agnóstico teísta acredita na existência de pelo menos uma divindade, mas diz respeito à base desta proposição como "algo desconhecido ou inerentemente incognoscível. (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teísmo_agnóstico)

[3] A inflação propõe que as galáxias teriam sido formadas a partir de sementes geradas no período inflacionário. Essa idéia seria testável, pois prevê a existência de pequenas flutuações na temperatura da radiação cósmica de fundo. Muito se pesquisou a esse respeito até que, em 1992, o satélite Cobe determinou não só que essas flutuações existem, mas que elas se comportam exatamente de acordo com o previsto pela teoria inflacionária. (fonte: http://www.if.ufrgs.br/~thaisa/cosmologia/inflacao.htm)

[4] Hipóteses são idéias que tentam explicar um fato observável; Teorias são hipóteses que passaram pelo processo de averiguação de suas previsões e; Leis são hipóteses que explicam eventos que ocorrem com regularidade. (fonte: http://polegaropositor.com.br/polegaropositor/como-a-ciencia-funciona-hipoteses-teorias-e-leis/)

[5] Parte-se da premissa geral de que tudo o que veio a existir possui uma causa. Ora, o Universo veio a existir, nem sempre existiu, logo ele possui uma causa. De fato, cada ente possui uma causa, que também possui uma causa e assim por diante. Entretanto, não é possível recuar infinitamente numa série de causas, pois assim o Universo nem poderia começar. Sendo impossível a regressão infinita, deve haver uma causa primeira, que é necessariamente incausada. (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Argumento_da_causa_primeira)

[6] Sim, eu sei, quando a gente estuda cosmologia e astrofísica, nos deparamos com fenômenos que podem preceder o próprio universo. Então que esses fenômenos sejam incausados. Melhor, sejamos cientistas, deixemos em aberto as perguntas que não podemos responder, ao invés de dar qualquer resposta. Não sejamos iguais ao cara da segunda tirinha.

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