terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Abraão

Abraão é um personagem bíblico citado no Gênesis a partir do qual teriam se desenvolvido três grandes vertentes religiosas da humanidade: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Até hoje, os arqueólogos não encontraram nenhuma prova da existência de Abraão. É o primeiro dos Patriarcas bíblicos e fundador do monoteísmo dos hebreus. [1]

Eu ia escrever sobre ética e sobre a história de Abraão e Isaac. Mas que felicidade encontrar alguém que já escreveu tão melhor do que eu escreveria.

A fé como suspensão da ética: O mito de Abraão e Isaac segundo Søren Kierkegaard e José Saramago (por Eduardo Carli de Moraes) [2]


"Com a faca afiada colada a seu pescoço, prestes a ser degolado, o que passava pela mente do pequeno Isaac?"

#PraCegoVer: Detalhe do rosto de Isaac na obra "Sacrifício de Isaac", de Caravaggio.
#PraCegoVer: Detalhe do rosto de Isaac na obra "Sacrifício de Isaac", de Caravaggio.

"Na pintura de Caravaggio, que retrata o momento em que Abraão vai sacrificar Isaac [...] enxergo uma cena de tortura. Na pintura, foquemos o olhar sobre o rosto de Isaac, contorcido pela angústia extrema, oprimido pela violência das mãos viris de Abraão: o que nos contam estes olhos infantis aterrorizados pela lâmina da faca ameaçadora? [...] incapaz de compreender o desatino do mundo encarnado na loucura de seu pai. [...] Isaac está aí representado em pleno confronto com o Absurdo. Pois Abraão encarna nesta cena o famoso CREIO POIS É ABSURDO." [grifo meu]

#PraCegoVer: Obra "Sacrifício de Isaac", de Caravaggio. No quadro, um anjo interrompe Abraão, prestes a matar Isaac.
#PraCegoVer: Obra "Sacrifício de Isaac", de Caravaggio. No quadro, um anjo interrompe Abraão, prestes a matar Isaac.

"[...]Isaac abraçado aos joelhos de Abraão, caído aos pés do pai, implorando por sua jovem vida. Mas é algo bem diferente da misericórdia ou da ternura o que o filho descobre na atitude [...]  uma figura que, embriagada pela fé, acaba por suspender a ética: o velho está prestes a cometer um crime hediondo, o assassinato de seu próprio filho, pois acredita que os céus o ordenaram. A fé é uma das forças psíquicas capazes de varrer do quadro as mais básicas das atitudes éticas: não matar cessa de valer quando o crente acredita-se requisitado por seu deus a assassinar o ímpio ou a sacrificar a vítima apontada pelo dedo invisível do divino."

Quem matou mais: Deus ou o Diabo? [3]


Os religiosos tentam explicar das mais diversas formas como a bíblia pode estar certa e Deus ser bom ao mesmo tempo. Buscam justificar o injustificável. Essas explicações são contraditórias umas com as outras: faça uma busca no Google sobre "por que deus mandou matar" e leia três explicações em três páginas distintas, para entender o que digo.

Infelizmente, essas explicações, que buscam tomar a bíblia como verdade universal, geram absurdos que algumas pessoas obedecem, como esse:

Print Screen de uma página fundamentalista religiosa
#PraCegoVer: Imagem de tela de uma página religiosa [4]. O texto pode ser lido no site, referenciado ao final do texto.

Com esse tipo de pensamento justifica-se, por exemplo, matar o filho homossexual, para que ele não se relacione com outros homens: melhor matar o corpo físico que sujar a moralidade da alma eterna (antes morto, que gay).

Como essa fé absurda pode se manter nos dias de hoje?


"Diante de Abraão, não há como evitar a questão: estamos diante de um santo ou de um louco? Eis um herói a ser celebrado, ou então um psicopata perigoso digno de ser metido no hospício? Devemos louvar esta heróica demonstração de obediência à vontade divina, ou lamentar a psicopatologia que levou este demente senil às beiras de cometer um ato grotesco? Devemos imitar o exemplo desta obediência pia e estrita aos ditames de um deus suposto, ou devemos ler esta narrativa como um símbolo dos perigos que há nestes vícios (humanos, demasiado humanos!) da idolatria e do fanatismo?"

"Nossa tendência é lidar com a história de Abraão e Isaac, narrada no Gênesis, com a tranquilidade daqueles que já conhecem seu “final feliz”: sabemos que tudo não passou de um teste [...] Além do mais, [...] somos todos convidados a imitá-lo como modelo, já que nada apraz mais ao deus único [...] do que uma criatura que sacrifica a autonomia de seu intelecto para tornar-se plenamente obediente aos ditames do céu..."

"O problema [...] está na reputação cheia de honra e glória de que goza Abraão, como pai da fé e patriarca do monoteísmo, quando o mesmo Abraão é um violador da ética, já que ergueu a lâmina para assassinar Isaac. Eis o paradoxo e o absurdo: a divindade demanda a suspensão da ética; deus é o mandante de um crime; a fé é o heroísmo maluco e a loucura sagrada através do qual alguém peca contra o universal."

#PraCegoVer: Imagem de um terrorista, cujas motivações se baseiam em uma das três Religiões Abraâmicas.
#PraCegoVer: Imagem de um terrorista, cujas motivações se baseiam em uma das três Religiões Abraâmicas. Na foto, o terrorista, com o corpo todo coberto e uma faca na mão, aparenta estar falando com alguém, provavelmente uma câmera, enquanto um homem de laranja, provavelmente um ocidental capturado, está de joelhos aguardando a execução.

"Abraão simboliza tão bem o que significa ter fé [...] Abraão só tornou-se tão célebre por seu extremismo, por sua intransigência, por esta extraordinária teimosia na fé e que merece ser chamada [...] de fanatismo." [grifo meu]

"É uma interrogação inescapável: aquilo que se chama de “amor à deus” é realmente a maior de todas as virtudes e deve ser colocado acima de todo e qualquer dever ético?"

"Eis um deus que exige ser amado mais que tudo, na exclusão de tudo, e que como prova de fé demanda que o amor entre pai-e-filho seja aniquilado em um altar. A um deus destes eu me recuso a tirar meu chapéu. Não acho que mereça minha devoção. [...] Aquele que é capaz de levantar a lâmina fatal contra o próprio filho não me parece um herói a ser celebrado, mas um caso clínico; não um adorável modelo de conduta mas um nocivo psicopata; não a ilustração dos caminhos que o sábio deve seguir mas o contra-exemplo que nos conta daquilo que faremos bem em evitar: o fanatismo, a obediência cega, a fé que dá licença à suspensão da ética e ao cortejo das atrocidades." [grifo meu]

Fiz das palavras de Eduardo Carli de Moraes, minhas palavras. Obrigado.

Referências:

[1] Wikipedia: Abraão
[2] A Casa de Vidro. A fé como suspensão da ética: O mito de Abraão e Isaac segundo Søren Kierkegaard e José Saramago (por Eduardo Carli de Moraes)
[3] Super Interessante. Quem matou mais: Deus ou o Diabo?
[4] Um site de fanáticos religiosos, que infelizmente tive o desprazer de ler

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