terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O dilema do prisioneiro e o caos do transporte urbano (reescrito)

O texto contém um pouco de matemática, mas evitarei ao máximo o uso de números. Tente apreciar um bom argumento. Me dê retorno se tiver dificuldade na leitura.
Em Teoria dos Jogos existe algo chamado Dilema do Prisioneiro. Como a maioria das grandes ideias da humanidade, ela é simples, mas de grande aplicação. Vamos tentar entender:
  • Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia.
  • A polícia tem provas insuficientes para os condenar, e, portanto, só pode mantê-los presos por 1 ano em prisão preventiva.
  • Porém eles resolvem colocas os prisioneiros em salas separadas para oferecer a cada um o seguinte acordo: "Se você dedurar o outro, a gente tira um ano de sua pena. E ele pega três anos de prisão pelo crime cometido".
  • Portanto, se um testemunhar (TRAIR) e o outro permanecer em silêncio (COOPERAR com o comparsa), o que dedurou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 03 anos de sentença. Se ambos dedurarem (TRAÍREM), cada um pega 02 anos. Se ambos ficarem em silêncio (COOPERAREM entre si), cada um tem 01 ano de cadeia.
  • Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro.
A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como cada prisioneiro vai reagir?

#PraCegoVer: tabela explicando o resultado do Dilema do Prisioneiro.
#PraCegoVer: uma tabela explicando resultado do Dilema do Prisioneiro.
Vamos deixar números de lado e utilizar palavras. A questão é bem simples:
  • A situação é BOA quando os dois cooperam entre si e ficam calados: 01 ano de cadeia é pouco comparado a 03 anos.
  • É ÓTIMA para o que dedura enquanto o colega, traído, fica calado. Mas, para o colega traído, é PÉSSIMA, são 03 anos!
  • Se os dois deduram, a situação é RUIM para ambos, que pegam 02 anos de cadeia cada.
Com poucas variáveis em questão e apenas dois indivíduos, é fácil entender. Difícil é prever o as conseqüências desse pequeno jogo, algo que John Forbes Nash fez muito bem em Teoria dos Jogos.
A melhor situação global, aquela que reduziria ao máximo o total das penas, é a da COLABORAÇÃO mútua, que resulta num total de 02 anos de cadeia. E a pior situação global é aquela da TRAIÇÃO mútua, que resulta em 04 anos totais de cadeia.

Provavelmente você deduraria.

Se o outro também dedurou, você escapou de ficar mais tempo preso em troca de um ingrato; se o outro não dedurou, você fez algo ruim, mas está livre. Talvez você tente a sorte, tente confiar no cúmplice. E pode dar certo.

Mas, uma vez traído, você confiaria no outro de novo?

Ao incluirmos a repetição, expandimos a questão, de quatro situações para um número bem maior.
Quem leu O Gene Egoísta, do Richard Dawkins, um livro de biologia que aparentemente não tem nada a ver com o assunto aqui, vai se espantar com as semelhanças a seguir. Aliás, a palavra meme surgiu nesse livro.

E se inserirmos outras pessoas?

Suponhamos, agora, uma situação ideal: todos em sua cidade, apesar de terem seus carros individuais, aderissem a um sistema de caronas ou rodízios. Durante uma semana, ao ir para o trabalho/universidade/seja lá, uma pessoa passa na casa de dois, três ou quatro pessoas e vão todos juntos. Nas semanas seguintes, o "motorista da rodada" passa a ser outro, e assim vai.
Primeiro, uma economia óbvia em gastos com manutenção de veículo e combustível. Segundo, ao trocar carros individuais por carros com três a cinco pessoas, o número de veículos seria reduzido, hipoteticamente, para algo entre 20% e 33% da frota de veículos nas ruas.
Esta é uma situação BOA, e não ÓTIMA, tendo em vista que ainda há o trabalho de desviar o percurso direto para o trabalho.

Mas quando a situação é ótima?

Para um indivíduo, que aqui chamarei de ELITE (palavra usada para concepção da nossa hipótese), a economia em combustível pelos dias em que receberia carona não compensa o conforto de ter flexibilidade, sem precisar dar carona ou depender de carona. E realmente não compensa. Então ele decide abandonar o sistema de rodízio.
Esse indivíduo da ELITE encontra-se agora na situação ÓTIMA. As ruas possuem poucos carros, o deslocamento é rápido e o gasto adicional em combustível é mínimo em comparação com o conforto do veículo particular pleno. Esse indivíduo, sozinho, não chega a alterar o status BOM da situação dos que praticam o rodízio. Concorda até aí?
Talvez você discorde do fato de eu ter aparentemente desconsiderado o prejuízo do uso de carro. É um custo elevado, eu sei, mas, convenhamos, quase qualquer pessoa pode ter um carro hoje em dia. É o que se vê pelas ruas. O custo do carro é elevado, mas poucas pessoas trocariam o conforto dele por modos alternativos. É a realidade.

As pessoas querem o que é melhor para elas.

Um a um, os indivíduos que foram traídos vão abandonando o sistema de rodízio e migrando para o veículo particular pleno, o carro com apenas um passageiro.
Numa proporção de 50/50, com metade dando carona (COOPERANDO) e metade ELITE (TRAINDO), chegamos a um dos pontos do dilema do prisioneiro:
  • A metade que trai, a ELITE, fica numa situação considerada BOA, o veículo particular pleno, com entre 60% e 67% da frota de veículos nas ruas.
  • A metade que COOPERA, que continua a praticar o rodízio, fica numa situação RUIM, pois, além do trabalho resultante do rodízio, agora tem de lidar um número de veículos entre duas e três vezes maior do que antes do processo de elitização do transporte.

O trânsito piora...

Quanto mais carros nas ruas, maior o trânsito e maior o tempo de deslocamento. O trânsito é um ônus pesado para todos, mas muito maior para quem fornece carona. Para economizar tempo, mais e mais pessoas desistem do sistema de caronas, e passam a utilizar o carro individual.
Com mais e mais pessoas se tornando ELITE, com a frota total nas ruas se aproximando de 100%, já não é BOM para ninguém:
  • A situação é RUIM para quem é ELITE.
  • E é PÉSSIMA para quem ainda COOPERA com o rodízio.
Por isto mesmo, é impossível a curva se inverter. Mesmo que o estado geral de COOPERAÇÃO (rodízio/carona) seja melhor que o estado geral de ELITE, em qualquer momento descrito é melhor não cooperar.

O Equilíbrio.

Poderíamos criar um modelo matemático para isto - o que não é difícil, mas não sei fazer, e nem vou, pois Dawkins, com ajuda de W. D. Hamilton (eu acho) criou diversos modelos aplicados à seleção natural e os resultados seriam os mesmos aqui.
Nesse modelo, atribuiríamos pontuações positivas para os ganhos (autonomia sobre o veículo, trânsito livre, economia de combustível) e pontuações negativas para as perdas (dar carona, pegar trânsito, maior gasto em combustível). Cada indivíduo fazendo uma escolha, ganhando e perdendo pontos por ela. Esse modelo não é estático, mas possui uma escala temporal que conduz até atingir um ponto de equilíbrio. Chegaríamos, provavelmente, a estas conclusões:
  • O EQUILÍBRIO seria atingido quando todos passassem a utilizar o veículo individual.
  • O EQUILÍBRIO não é a melhor opção global.
Se considerássemos a melhor opção global como "a situação em que, ao somar a pontuação de cada indivíduo, atingimos a maior pontuação possível", encontraríamos um ponto onde há uma parcela (pequena) de ELITE e uma parcela (grande) de COOPERADORES - nisso, vocês vão ter que acreditar em mim, assim como acreditem em Dawkins. Isto é o que a ELITE (a palavra agora foi usada da mesma forma que usamos no dia-a-dia) quer: só alguns poderem ter carro.

A realidade:

Ainda assim, essa não é a melhor opção. Temos uma situação de desigualdade entre duas classes, uma se beneficiando da outra (alguma novidade?). E, também, não é uma situação estável, pois os indivíduos COOPERADORES (que não estão cooperando, mas sim sendo forçados) tentarão, o mais cedo possível, se tornar ELITE.
O crescimento econômico e a redução da desigualdade social realmente facilitaram o acesso a veículos. Mas o problema não é a oportunidade de ter carro dada às pessoas de baixa renda, e a solução não é tirar dessas pessoas a possibilidade de ter carro. Mesmo que o fizéssemos, a ELITE ainda cresce em números, com um carro para cada membro da família.
O que fortalece esse sistema  é o descompasso: andar num veículo individual é, para a maioria das pessoas, melhor que qualquer outra opção. Antes do surgimento do fator TRÂNSITO, não havia sequer motivos para o sistema de caronas, ou para qualquer outra modalidade de transporte alternativa ao veículo particular individual.

Conclusão:

A conclusão não é óbvia.
Se todos cooperassem, poderíamos ter uma situação benéfica para todos. Porém, alguém sempre vai se aproveitar da cooperação dos outros para obter um benefício ainda maior. Quando ninguém coopera, chega-se numa situação ruim para todos.
Mas não existe tal coisa de "conscientizar" a população. Ninguém gosta de ser explorado: mesmo que seja pelo benefício maior, as pessoas se cansarão e deixarão de cooperar.
O problema real é a quantidade de investimentos destinada aos veículos automotores individuais, em detrimento dos demais. E quanto mais investimento nessa área, menos pessoas irão COOPERAR e PIOR será o problema. A realidade é contra-intuitiva, e claramente o cidadão comum não vê. Nem os gestores públicos.
Deve-se, portanto, resolver esse descompasso existente em qualquer dado momento - seja com todos, com alguns ou com nenhum cooperador - entre COOPERAR e ELITE.
Os gestores devem beneficiar amplamente quem COOPERA (seja com caronas, transporte público, bicicletas ou qualquer alternativa), mesmo que em detrimento da ELITE. Eu arrisco dizer, inclusive, ESPECIALMENTE EM DETRIMENTO DA ELITE.

Conclusão 2:

Tudo bem que você não deseje cooperar. Não vou pedir que mude de lado, que ande de ônibus ou bicicleta. Vá, pegue seu carro,  pode ser a melhor opção para você.
Mas não lave suas mãos.
Peço a cooperação em outra coisa: saber o que exigir dos gestores públicos. Pare de pedir viadutos, alargamentos. Pare de reclamar de corredor de ônibus, de ciclofaixa. Exija dele o investimento em outros meios de transporte. Quanto mais gente usando ônibus, bicicleta ou metrô, menos carros na rua.

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