sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Determinismo

Gosto de compartilhar o que aprendo e apreendo. Hoje, tratarei do determinismo (clique para acesso ao texto original), segundo João Barcello, no site Genismo. Não utilizarei aspas, pois os trechos copiados receberam modificações e correções. Contudo, utilizei colchetes para identificar inserções textuais feitas por mim. Os grifos são meus, e eu os amo. Também amo os hipogrifos.
Por ser materialista o Genismo (clique para a definição completa no site) não assume nenhum tipo de entidade metafísica para construir seu arcabouço teórico, e por ser neodarwinista entende os seres vivos como "máquinas perpetuadoras de genes": Todo organismo vivo é resultado de um processo de bilhões de anos de evolução por seleção natural, e existem hoje apenas os descendentes dos que conseguiram perpetuar seus genes, e que, portanto, devem também possuir esta característica.
A palavra determinismo é vista quase como um palavrão como, se a ciência estivesse entrando no sagrado templo do livre arbítrio humano. Mas será que este livre arbítrio é tão intocável assim? Será a liberdade um fato ou uma fantasia? Antes de responder a isso, vamos entender o que é um universo determinista.

Determinismo e Livre Arbítrio

Primeiro, vamos definir conceitos. Atenção a eles, são premissas de um argumento lógico. Você pode considerar uma ou mais premissas incorretas, ou considerar as consequências lógicas delas incorretas. Nesse caso, a argumentação será invalidada por você. A primeira parte do texto chamei de Premissas. A segunda, considerações, dividi em duas partes: uma como considerações sobre as premissas; outra como conclusões lógicas das premissas.

Premissas

  • Universo: Porção do espaço completamente isolado. Não há nem fluxo de massa, nem de energia, nem de informação através das fronteiras. [Um sistema fechado. Podemos considerar que estamos dentro de um.]
  • Determinismo ontológico (Tipo 1): Corrente filosófica segundo a qual no universo, o mesmo conjunto de causas tem sempre o mesmo conjunto de consequências. [Ao pé da letra. O mesmo conjunto de causas é realmente o mesmo, sem tirar nem por energia, massa ou informação.]
  • Determinismo epistemológico (Tipo 2): Corrente filosófica segundo a qual, dado um sistema, é possível determinar na prática o futuro a partir do presente. [Podemos fazer isso em coisas pequenas, ao realizar reações químicas ou jogar um copo de vidro no chão. No determinismo epistemológico, podemos fazer com coisas grandes, desde que tenhamos todas as informações necessárias.]
  • Indeterminismo: Se refere a uma concepção filosófica segundo a qual alguns acontecimentos não têm causas ou que têm causas não-lineares: limitam-se a acontecer e nada há no estado prévio do mundo que os explique. Corresponde assim, à uma quebra da causalidade.
  • Estado do sistema: O estado do sistema fica especificado/conhecido se todas as variáveis necessárias para o descrever forem especificadas. [TODAS]
  • Condições fronteira: Valor das variáveis na fronteira.
  • Condições iniciais: Valor das variáveis no momento inicial do sistema.
  • Sistema determinístico (Tipo 1): Sistema cujo futuro fica determinado se forem especificadas as suas condições iniciais e fronteira. [Se e apenas se.]
  • Sistema reversível: Sistema que é determinístico nas duas direções do tempo. [Com as condições especificadas, podemos prever o futuro e saber como estava no passado. A medicina forense tenta determinar as causas da morte a partir das condições do corpo em determinado momento.]
  • Sistema irreversível: Sistema que não é determinístico para o passado, e, portanto, impossível determinar com exatidão o passado. [Esse item todo foi puxado das considerações, pois considerei fora de ordem.]
  • Livre arbítrio (Tipo 1): Capacidade de um agente para ser a causa das suas próprias ações.
  • Livre arbítrio (Tipo 2): Capacidade de um agente para ser a causa exclusiva das suas próprias ações.

Considerações

  1. Um universo determinístico do ponto de vista ontológico pode não ser determinístico do ponto de vista epistemológico. [Pode não ser, mas também pode ser.]
  2. Um universo determinístico do ponto de vista epistemológico é determinístico do ponto de vista ontológico. [Ver Consideração 1.]
  3. Um universo indeterminístico é indistinguível de um universo determinístico de Tipo 1 (ontológico). É impossível provar que um universo é indeterminístico porque num universo indeterminístico as condições experimentais não podem ser controladas.
  4. Se um sistema indeterminístico for dividido em N subsistemas, só os subsistemas isolados (universos) é que são determinísticos do ponto de vista epistemológico. [Nosso universo pode ser indeterminístico ou determinístico do Tipo 1, não podemos determinar. Contudo, se isolarmos um subsistema em nosso universo, ele pode ser determinístico. Os exemplos das reações químicas, do copo de vidro ou da medicina forense se aplicam, de certa forma, aqui.] O futuro de cada subsistema é imprevisível porque as condições fronteira são forçosamente imprevisíveis. [Isto é, podemos tentar, com o máximo de aproximação, fazer determinações, mas as condições de fronteira não são bem determinadas, é possível que haja trocas de massa, energia ou informação, ou que, mesmo isolando um sistema ao máximo, ainda não saibamos todas as suas condições iniciais.]
  5. Um sistema determinístico de Tipo 1 pode não ser determinístico de Tipo 2 porque: é impossível determinar as condições iniciais; as condições fronteira são imprevisíveis; as leis que regem o sistema são desconhecidas. [Eu pessoalmente acredito que nosso universo é determinístico de Tipo 1, mas não de Tipo 2, e nunca será, pois os três problemas nunca serão resolvidos.]

Conclusões lógicas

  1. Num universo de Tipo 1, nada nem ninguém mudará o futuro. [Pois ele é determinístico.]
  2. Num universo de Tipo 1, as ações humanas são internas ao sistema e estão elas próprias determinadas desde sempre. [Somos parte do sistema.]
  3. Num universo indeterminístico, ninguém pode mudar o futuro porque a componente determinística que exista não pode ser fonte de mudança [não pode ser fonte de mudança por que é em si determinística] e a componente indeterminística não tem causa e não pode ser atribuída aos agentes [por não ter causa, observamos apenas seu efeito e de que forma esse efeito atua nos agentes].
  4. O indeterminismo não pode ser a fonte do livre arbítrio porque o livre arbítrio pressupõe que os agentes são as causas das suas próprias ações e o indeterminismo pressupõe que não há causas. [A impressão de livre arbítrio se dá pela ação de algo inexplicável sobre o agente, e não pelo agente em si.]
  5. O determinismo de Tipo 1 é compatível com o livre arbítrio de Tipo 1, mas não com o de Tipo 2. [Pois o agente pode ser causa de suas decisões, mas não causa exclusiva.]
  6. Num universo determinístico, as ações futuras de um agente são determinadas: pelo estado inicial do agente; pela influência do resto do universo no agente; pela influência do agente no resto do universo. Livre arbítrio Tipo 1.
  7. Num universo indeterminístico, as ações futuras de um agente são determinadas pelos 3 fatores anteriores e por ruido que não se sabe de onde vem. [Ruído que limita-se a acontecer e nada há no estado prévio do mundo que o explique]. Livre arbítrio Tipo 2.

Conclusões de conclusões

O texto em si é chato para a maioria das pessoas. Não consegui, ainda, adicionar imagens a ele. Tentarei no futuro.
Porém, é interessante ressaltar um ponto:
Um universo indeterminístico é indistinguível de um universo determinístico ontológico, como o nosso. Como não somos capazes de compreender todo o conjunto de regras, esse determinismo não é epistemológico.
Porém, nossa incapacidade de compreender todo o conjunto de regras não deve ser motivo para deixarmos de tentar. Quanto mais regras conhecermos, melhor seremos capazes de entender e moldar o universo que nos cerca. Esse conhecimento não ocorre apenas nas áreas de exatas, como Física. Física é, por definição, a ciência que estuda a natureza, mas ela pode ser entendida de forma mais fundamental (com a Matemática) ou de forma mais geral: da física, entendemos a química; desta, a biologia; daí, para a psicologia; dela, para a sociologia.
Mais importante: a possibilidade do nosso universo ser indeterminístico não deve nos permitir que consideremos algo não pode ser explicado. Primeiro, pois nunca poderemos provar que o universo é indeterminístico (e, portanto, que haja algo que não pode ser explicado). Segundo, pois mesmo num universo indeterminístico, o ruído não pode ser identificado (logo, um fenômeno observado não é, por si, o ruído, então é passível de ser estudado).

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